sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Dança na subcultura Heavy Metal

                                                    
  Entrevista a Elke Siedler, por Cielinszka Wielewski*

“...Estereótipos foram quebrados no que concerne aos fazeres próprios de cada segmento das artes!” – Elke Siedler
    A dança é arte milenar. No entanto, para quem curte qualquer subgênero dentro do que convencionamos heavy metal, o estranhamento é comum; afinal, dança pressupõe gestos delicados, trilhas sonoras adversas ao metal, bem como público diferente ao que estamos acostumados quando vamos a um show.
Será? Nas últimas décadas no Brasil, a dança vem ganhando cada vez mais espaço “no mundo metal”, perpassando diversos estilos, mostrando a integração entre as distintas manifestações da cultura underground. E ela veio para ficar! Afinal, onde há musicalidade, pode haver dança. Ambas podem manifestar e expressar a agressividade a que somos submetidos, além de passar um conteúdo/mensagem (seja esta de crítica ou não).
Hoje tenho o prazer de expor aqui a entrevista realizada com Elke Siedler, de Florianópolis/SC. Bailarina, coreógrafa, professora e escritora, conseguiu transpor a barreira do preconceito, propondo novos desafios que podem muito bem nos levar a refletir: Qual a proposta das artes, independente do estilo musical?

         
                                    Foto: Alexei Leão     
      
1. Conte um pouco da sua história/trajetória profissional na dança.
            Iniciei meus estudos em dança, aos cinco anos de idade, por indicação médica: meus joelhos eram direcionados para dentro e deveria fazer um trabalho de fortalecimento muscular para realinhá-los. Este foi meu primeiro contato com a dança e o início de um grande amor pelas artes do corpo! Aos seis anos de idade decidi que seria bailarina profissional e, desde então foquei minha vida para esta carreira. Resumidamente, fiz ballet clássico dos 5 aos 19 anos, com a maitre Bila Coimbra, na escola chamada Estudio B, em Florianópolis/SC; aos 19 anos entrei para o elenco de um grupo de dança contemporânea profissional chamado CENA 11 (uns de maior relevância artística na cena contemporânea da dança brasileira); com 25 anos decidi trilhar por caminhos próprios e criei a Siedler  Cia De Dança, na qual assumi as funções de coreógrafa-dançarina e direção geral. Hoje, aos 37 anos, tenho convicção que fiz a escolha certa ao optar pelos caminhos da dança! Não sou apenas coreógrafa e bailarina, agreguei a carreira acadêmica: fiz graduação em História (UFSC), Especialização em Estudos Contemporâneos em Dança e mestrado em dança (UFBA) e agora sou doutoranda em Comunicação e Semiótica (PUC/SP). Descobri que, para complexificar meus fazeres enquanto artista, lecionar é fundamental enquanto compartilhamento de saberes e produção de conhecimento. Além de cursos livres sou professora colaboradora de práticas do corpo, na graduação de Teatro, na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Bem, entrei como sócia proprietária de um centro cultural privado, em Florianópolis/SC, chamado Célula Cultural Mané Paulo, que se presta a criar um ambiente de convivência entre fruidores, estudantes, amadores e profissionais da música autoral (rock, pop, metal e vertentes), dança, teatro e performance. Além disso, é um espaço de estudos, ensaios e apresentações destas linguagens artísticas. Bem, minha vida de bailarina se expande e gera ações em outras instâncias extra-palco.
                                     
  
                                    Foto: Cristiano Prim       
                         
2. Você desenvolveu um projeto magnífico junto à banda Stormental, de Florianópolis/SC. Explique para os leitores como foi esse processo, quais os conceitos trabalhados, os lugares por onde se apresentaram, bem como foi a receptividade do público. 
            Particularmente tenho um carinho grande por este projeto e considero ele como parte dos trabalhos de maior relevância da minha carreira!! Nós da Siedler Cia de Dança e a banda de prog-metal Stormental estabelecemos uma parceria artística em 2008. O resultado deste encontro inusitado de dança contemporânea e heavy metal foi a concepção do espetáculo PERCEPTION OF THE OTHER. A direção artística do espetáculo foi assinada por mim conjuntamente com o Alexei Leão, vocalista da banda. O elenco é composto por 4 bailarinos e 4 músicos
            Resumidamente, este projeto é ousado pela proposta de conceber um encontro entre dois mundos aparentemente distantes: metal e a arte contemporânea da dança. Fomos inspirados pelo estudo das percepções humanas para levantar questões acerca das diferenças existentes na interação entre indivíduos e na convivência com o mundo. Os modos compositivos da Siedler e do Stormental passaram por modificações para a realização deste projeto onde utilizamos momentos de improvisação em tempo real enquanto estratégia de criação de um ambiente sincero de percepção e diálogo com o outro. A receptividade do público foi linda! Após os espetáculos tínhamos o hábito de conversar com a platéia, de maneira informal! Neste momento as impressões do público vieram à tona e, de modo geral, percebemos que quebramos paradigmas ao apresentar o metal para o público da dança e vive-versa. Isto significa que estereótipos foram quebrados no que concerne aos fazeres próprios de cada segmento das artes!

                          
   
                               Foto: Guilherme Ternes

            Em 2012, lançamos um DVD/CD, produzido pelo próprio Alexei Leão. O projeto gráfico é em digipak com embalagem slipcase. No mesmo ano disponibilizamos o DVD/CD para audição e download através do soundcloud. Esteve na lista dos melhores no Blog Estadão, de São Paulo/SP.
            Fizemos muitas apresentações desde o início do projeto. Entretanto, destaco as que realizamos numa turnê pelo sul do Brasil, no primeiro semestre de 2012, subsidiado pelo Prêmio FUNARTE de Dança Klauss Vianna/2011 e, por fim, nossa turnê pelo CIRCUITO SESC DE MÚSICA, em 2013, onde circulamos por 28 cidades catarinenses num período de 45 dias.
               
                                
       Banda: Stormental   Espetáculo PERCEPTION OF THE OTHER  Foto: Rafael Scopel

3. Quais suas preferências musicais? O que mais gosta de ouvir?
Gosto de músicas que considero viscerais, e isto pode ser desde o heavy metal do Judas Priest, até música clássica de Chopin ao trip hop da banda Portshead!! Atualmente escuto em casa The  Black Dahlia Murder, Revolution Renaissance, Nick Cave e Tom Waitts. 

4. O que é a dança para você?
Dança é vida, é a minha vida! As impressões que tenho da realidade são todas contaminadas pelas sutilezas e superações de limites das experiências que vivi e vivo diariamente na dança. Dançar é uma oportunidade de ampliação da consciência de si e do outro, é aprender a ser sincero consigo mesmo e com o mundo, é uma carreira intensa que propicia se transformar numa pessoa melhor, menos egoísta. Quando danço me sinto eu, é o único momento que me sinto completa, terrivelmente eu.

                         
                                   Foto: Cristiano Prim

5. Que conceitos ou problematizações são frequentes na sua arte, de modo geral?
Gosto de pensar na dança contemporânea enquanto potente campo de ação política! Isto reverbera tanto no que concerne a reflexão-crítica sobre os assuntos tratados em cena bem como os processos compositivos e as opções de diálogo com outras vertentes do conhecimento. Mas, também, trabalhar com dança significa pensar, fazer e se juntar com seus pares para criar outros modos organizativos que propiciem financeiramente os processos de montagem, circulação, manutenção de trabalhos de artistas da dança de modo que se expanda o campo profissional e seja o mais democrático possível. Pensar politicamente a dança significa extrapolar os limites da mesma e alcançar o público, ocasionar modificações! 

6. Qual estilo de dança mais influenciou você ao longo dos anos? Por quê?
Fiz ballet clássico dos 5 aos 19 anos e após esta idade comecei a me dedicar  para a dança contemporânea!! Mas, o que de fato me contamina, o que me inspira esteticamente, é a corporeidade do mundo das musicas que escuto, das artes marciais, do skate. Adoro ir para shows de heavy metal pois, durante as apresentações, minha criatividade é aguçada e faço varias relações com meus projetos compositivos atuais. É engraçado: minha vida é voltada para a dança, mas frequento mais o ambiente da música e é neste ambiente que me contamino artisticamente! 

7. Quais as lacunas que você percebe no meio artístico/cultural?
Atualmente dois aspectos me preocupam com maior regularidade: 1) embora nós, profissionais da dança contemporânea, consigamos sobreviver e produzir arte contemporânea, diagnosticamos um mercado escasso no que concerne a apoio governamental e privado para nossas ações; 2) a dificuldade recém apontada provém de uma complexidade de fatores! Mas, me incomoda termos um pequeno público fruidor da nossa opção estética, o que nos impede de vivermos de bilheteria, e percebo que nos falta acreditar e apostar em alternativas criativas de sobrevivência!


* Cielinszka Wielewski é mestre em História Cultural pela UFSC; escritora, violoncelista e dona da marca Persephone Dark Clothes.

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