terça-feira, 6 de maio de 2014

Moda Underground Brasileira

                                                                                                             Por Cielinszka Wielewski*

Com o massivo acesso a bens e serviços que a internet nos proporciona, nos últimos anos a moda underground no Brasil sofreu um impacto grande e aumentou o consumismo entre pessoas de diversas classes sociais. Isso é bom ou ruim? Ou seja, o consumismo está apenas expressando a busca excessiva por uma aparência perfeita e aceitável, ou revela uma diversidade cultural dos sujeitos que não querem pensar igual a todos?                           
Marshall McLuhan, autor do conhecido termo “aldeia global”, ao referir-se sobre a televisão nos aos 60, afirmou que os meios de comunicação de massa aproximariam as pessoas e diminuiriam distâncias sociais. No caso da moda, hoje você pode constatar que tendo a internet como principal ferramenta de pesquisa e acesso, muitos brasileiros no circuito underground buscam inspirações nos mais diversos segmentos, influenciando e sendo influenciados por isso.                           
Será que poderia se dizer que a moda faz parte de uma indústria cultural? No sentido sociológico do termo, indústria cultural estaria ligada à arte consumida apenas como entretenimento nas sociedades industriais. Há o lado positivo e o negativo: aqueles que consomem apenas para distração e diversão, e aqueles que a vêem como um espaço de expressão crítica.
Se a música consumida, os filmes, a arte em geral no underground, bem como a moda nem sempre cumprem o objetivo relevante que é a reflexão, ao menos a exclusão social parece encontrar espaço propício para extravasar a raiva. Para Humberto Eco, não se pode apenas criticar os meios de comunicação que atingem as massas, porque eles podem levantar questões culturais, econômicas, sociais e políticas muito importantes. Levando em consideração que a moda está incluída nessas questões, ela tem um papel muito forte. Não esqueçamos que quem convive e está habituado ao underground, utiliza-se da internet e faz parte de um caldeirão cultural que mostra o próprio contraste de nossa sociedade, em que nem todos estão consumindo apenas por consumir. 
E a busca pela originalidade? Será que pelo fato de fazermos parte de uma sociedade globalizada, até mesmo no underground as influências externas atrapalham nossa produção e manifestação autêntica? Cabe aí uma reflexão ;)  Separei aqui duas entrevistas que fiz com consumidoras de moda underground, porque é interessante nesse contexto, alguns pontos de vista:

Luiza Phantoschmerz (L.P) – Rio Grande do Sul, Secretária
Alessandra Marsolla (A.M.) – São Paulo, Maquiadora e blogueira no Horror and Beauty

1. Para você, o que é moda?
L. P. Para mim a moda é uma forma de expressão através do vestir. É por ela que tento expressar à primeira vista minha personalidade e meus interesses.
A. M. A moda somos nós que criamos, cada um tem aquilo que faz seu estilo e isso que é a moda, aquilo que vem de dentro e faz a pessoa ser exatamente aquilo que só ela pode, é a unidade de cada ser, mesmo usando uma peça “ditada” pela tendência da moda.

                       Luiza Phantoschmerz – By Persephone Dark Clothes
                                                   Foto: acervo pessoal
                                       
2. Qual a relação entre a moda e a cultura underground (ou subculturas)?
L. P. O underground sempre teve uma ligação forte com a liberdade de expressão e a fuga dos padrões. Como disse anteriormente, acho que a moda é um desses canais de expressão, por onde as pessoas que não se encaixam nesses padrões estéticos ou de pensamento, buscam uma identidade.
A. M. Essa resposta seria gigantesca, mas ao meu ver é baseada naquilo que compõe o meu estilo, acredito que a subcultura gótica é o que mais dita minha moda, tanto com espartilhos,  como com peças cheias de detalhes em fitas e cetins, alem de muitos rebites e spykes.  
Lógico que ao longo da historia percebe-se todas as influências que a cultura underground tem sobre a moda, hoje em dia podemos ver o quanto de pessoas usam camisetas de bandas, até mesmo vendidas em grandes lojas de magazine, mostrando mais uma vez a importância da moda underground traz para o cotidiano de quem não segue um estilo definido.           
           
                  Alessandra Marsolla – By Persephone Dark Clothes
                        Foto: Blog Horror and Beauty
                                              
3. Você acha que a moda underground no Brasil está caminhando no sentido de ser mais original?
L. P. Não acho que esteja se tornando original, acho que o Brasil ainda "importa" muito a moda de outros países. Porém, vejo que cada vez mais os estilos alternativos vem sendo mais aceitos na sociedade. Um exemplo pessoal: quando fui pedir emprego pela primeira vez (há quase 8 anos atrás), recebi muita recusa por conta da minha aparência e não consegui trabalho no comércio, tive que partir para a indústria, onde não tinha contato com o público em geral e meu visual não era influência. Hoje trabalho como secretária e recepcionista, e nunca tive problemas com minhas tatuagens, piercings ou roupas. Claro que ainda posso ser considerada uma exceção (e também tento manter o visual leve, mesmo mantendo minha "essência"), mas creio que já evoluímos muito nesse sentido.
 A. M. Ser original é muito relativo, acho que não deve ter uma “ditadura” do que se deve ou não fazer, a originalidade está na naturalidade de cada um que segue o estilo. No Brasil a moda underground é pequena e existe muito preconceito com o “diferente”; então eu realmente acredito, que quem segue essa linha está vivendo uma originalidade única, e dentro desse pequeno grupo existe sim muito futuro e muito ainda que se viver e aprender.

4. Cite exemplos de artes que mais te influenciam.
L. P. Música, pintura/desenho, artesanato e dança.
A. M. Arte Gótica (em geral tanto na arquitetura como na literatura). Na música costumo escutar desde sons mais pesados como os mais lentos (óbvio que dentro do rock), mas as bandas que mais me influenciam são Semblant, Matanza, The cure, Rammstein, Motörhead, Duran Duran. No cinema assim como na TV, costumo ver muitos filmes e seriados de vampiros entre eles Entrevista com o Vampiro, Anjos da noite, True Blood, Drácula...

5. Que sites ou blogs você frequenta?
L. P. São vários. Gosto muito de páginas que mesclam arte e música com moda e decoração. Gosto muito do Through The Looking Glass da finlandesa MothMouth, Haute Macabre, Arcaicah, além de páginas no Facebook com esses e outros conteúdos que me são interessantes.
A. M. O meu é claro Horror and Beauty (http://horrorandbeauty.com/), Nox et Lux (http://noxetlux.blogspot.com.br/), Nosferotica (http://www.nosferotika.com.br/), entre outros. Porém esses são os que mais vejo na linha underground.

*Mestre em História, escritora, violoncelista e dona da Persephone Dark Clothes.