sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Música, Moda e reação: formação de identidades no Underground


"A identidade de um ser contém nela própria a diferença, aquilo que o ser ainda não é, mas que poderá vir a ser". - Hegel

                                                           Por Cielinszka Wielewski*
       Tomando por inspiração a frase de Hegel, podemos afirmar que as pessoas virão a ser aquilo pelo que elas identificam-se no seu dia a dia. No entanto, no dito “senso comum”, sempre haverá aquele que não sente-se parte da massa, do grupo, do “uniformemente não variado”. A massificação da cultura traz em seu gene um certo descontentamento daquele que percebe-se como marginal no processo. 
      O underground engloba uma série de gostos, de atitudes e comportamentos de pessoas que de alguma forma, sentem-se excluídas pela sociedade e neste meio encontram o conforto, uma maneira de expressar-se e compartilhar sua bagagem com outros, que do mesmo modo identificam-se com seus sentimentos.
      A moda underground nos últimos cinco ou seis anos no Brasil, tem dado um salto qualitativo muito forte para atender a demanda de gostos tão variados, bem como a música, no sentido de que ganharam uma visibilidade gritante, com  tantas iniciativas exploradas no ciberespaço.
       Em entrevista concedida, eis a pergunta a Ricardo Pereira, baixista da banda Labirinto:
P: “Por que você acha que as pessoas "excluídas" socialmente identificam-se com o undergound”?
R: “Eu acho que isso acontece porque todas as pessoas excluídas precisam se sentir bem consigo mesmas, procuram por algo que as represente, por um lugar onde possam ser verdadeiras, por algo que realmente gostem, e no underground, -seja na música ou qualquer outra coisa-, vão encontrar pessoas com ideias, ideais, trabalhos semelhantes, coisas com as quais realmente se identificam, e consequentemente, se sentirão bem por poder fazer o que gostam... O que a sociedade cruel não aprendeu ainda e acho que não irá aprender, -pois a história só se repete-, é que cada pessoa é única, tem direito ao livre arbítrio... Só falam nele, mas poder exercer que é bom, é difícil... E tem direito de ser diferente sim... Ninguém é obrigado a ser bonitinho, dentro de todos esses padrões absurdos para poder ser aceito”.
                         
                     Banda Labirinto (São Paulo). Foto de Wim Christiaen
       Se a identidade de um ser contém nela própria a diferença, é porque esta se define através do contraste, seja entre ricos e pobres, “bonitinho conforme os padrões” ou não, e assim por diante. Neste sentido, questionamentos estéticos envolvem a moda e o comportamento.
        Este artigo não tem pretensão de esgotar o assunto, nem levantar a bandeira do “politicamente correto”. No entanto, meio difícil empreender algo “mais despojado”, levando em conta a rotina do questionamento (com trocadilhos, pois vale ao público leitor). O objetivo aqui, é abordar a questão de como a moda underground imersa no Brasil, tem aflorado questões tão importantes acerca da sociedade em geral. Ou seja, problematizar e propor uma reflexão acerca de como as pessoas que consomem música & moda underground tem visto a si mesmas, seja em termos de origem ou personalidade.
     Não pretendo que seja algo semelhante à narrativa de como surgiu esta moda e tudo o mais trazido em seu cerne. Isso deixo aos escritores de blogs já consagrados em nosso país, bem como suas páginas e o respeito à formação de sua área.
      Nestas últimas décadas no Brasil temos presenciado uma abertura cada vez maior de debates acerca de tudo que antes “era dito proibido”. Faz sentido, levando em consideração a tentativa de amadurecimento de debates mais democráticos. Ao mesmo tempo, a moda undergound, bem como a música, acompanharam as mudanças. Acresce-se a isso, um vultuoso consumo midiático. Para tanto, redes sociais e toda parafernália digital tem um peso muito grande e inegável de contribuição.
     No entanto, o distanciamento entre a experiência e o conceito tem gerado algumas polêmicas. Gerações de décadas anteriores não tinham a internet como fonte para compartilhar suas opiniões. Será que podemos afirmar que elas viveram plenamente o underground? Percebe-se por exemplo, zineiros, blogueiros, integrantes de bandas ou público em geral reclamando que antes as pessoas apoiavam mais, compareciam a shows de sua região. As experiências antes vividas pessoalmente, agora dividem tempo e espaço com uma tela qualquer.
       Mas o que mudou? Ou seja, este público está modificando a maneira de ver a si próprio. Também os preconceitos pelos quais queiram desviar-se os excluídos, até mesmo a falta de tolerância, podem perpassar as fronteiras e estarem inseridos no underground, o que parece estar em maior evidência nas diversas mídias. O motivo do conflito, virou o próprio conflito.
      “Eu acho que em qualquer lugar existe preconceito, já notei que no meio underground existe só que é mais camuflado. Já ouvi casos de falarem que é poser, que deveria curtir Rap... Coisas do tipo”, diz C.M. (entrevistada).
     Não seria raro em seu dia a dia circulando pela redes sociais, frases  como “o machismo também existe no rock”, ou “essas páginas de garotas metaleiras desviam a atenção para assuntos importantes como a música e bandas independentes”, “não temos espaço para bandas do estilo X” etc. Tudo isso e muito mais, tem feito “parte do cardápio”.
     Outrora, do outro lado (defesa) há respostas brilhantes como, a questão de se estar trabalhando para melhorar sua autoestima. Afinal, moda e vaidade não se tratam de autoestima? E seria brilhante por quê? Porque afinal, sua autoestima também melhora quando você se identifica com uma música de sua banda preferida. Também é reforçada quando sua banda tem um público que apoia. Ou seja, são opções distintas, mas questão de gostos, de atitudes, que refletem sua personalidade. O que mudou, foi que novos temas e velhos interesses estão ganhando mais espaço, lado a lado.
Faz um certo sentido essa insegurança, levando em conta uma sociedade que vive tanto de aparências. As pessoas associam vaidade com um conteúdo vazio. No entanto, muito do público underground que consome moda por exemplo, não está unicamente preocupado com isso. Apoiam bandas, são blogueiros, estão politicamente engajados de alguma maneira. Muitos participam e tocam em bandas. A Moda é influenciada pela música e vice-versa, e por trás de uma aparência, refletem-se atitudes.
      É claro, não generalizemos, mas queira ou não, são pessoas mais questionadoras de valores moralmente impostos, e isso pode permitir progressos e avanços sociais. Ou seja, no caso da moda, trata-se de originalidade, de uma busca constante pela mesma. As pessoas não querem viver padronizadas, isso já seria a sua chata rotina.
Portanto, por que não acompanhar este novo papel reservado ao underground?
      Apesar do enfoque anterior, teríamos uma lista gigante se fôssemos enumerar todos os exemplos diários e gratuitos de intolerância.  Isto nos mostra que, como forma de reação, as pessoas podem identificar-se também de maneira negativa, operando e extravasando toda a raiva e angústia oprimidas dentro de si.
      No entanto, não se pode esquecer o que corre nas veias do Underground: o protesto, a politização, a estética inovadora e iniciativas louváveis. Quantas e quantas bandas no Brasil tem levado nossa voz e dado vez à reflexão!  Com temas diversos, problemas do cotidiano, mergulhados num vazio existencial, propondo a sobrevivência no submundo caótico.
     Isso lembrou-me a obra de Nietszche “O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música”. É claro, cada leitor apropria-se de uma leitura conforme suas necessidades.  No entanto, pareceu-me de vital a importância a questão de que a arte tem um peso instintivo muito grande, próprio a quem sobrevive. O mais importante não é suprir as angústias (isso nem sempre ocorre), mas estimular a sobrevivência. Como a arte é veiculada e por qual caminho, é opção de cada um.
     Atitudes são importantes e podem mudar algo, de alguma maneira.
                                       Do it yourself!

*Mestre em História, escritora & professora, violoncelista e dona da marca Persephone Dark Clothes.
Agradecimentos: Ricardo Pereira e Luiza Phantoschmerz.
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